VÍTOR POMAR WORKSCVExhibitions
   
   
         
   
         
   
         
         

Spontaneous Fruition, Mar 18 - May 8, 2017

 

Press releaseEnglish

Tentámos dar voltas e mais voltas à questão, mas a imposição da lenda de Plínio, o Velho, prevalece, uma e outra vez, sem demonstrar a mínima intenção de sair de cena. E porque não partir daqui para estas breves notas sobre a mais recente exposição individual de Vítor Pomar? Tudo, neste conjunto de obras, nos remete para um lugar primordial, para o início de alguma coisa, para um tempo do qual já não nos lembramos mas que, contudo, não conseguimos esquecer. Não é clara, esta sensação de reconhecimento, esta espécie de identificação com algo que nos diz respeito sem que, todavia, seja evidente a sua nomeação.

Atentemos, então, no mito de Plínio, o Velho. Em traços muito largos, diríamos que, na História Natural - Livro XXXV, se relata a lenda segundo a qual a filha de um ceramista, com a ajuda de um foco de luz, projecta a sombra daquele por quem estava enamorada na parede e nela inscreve a sua silhueta. A cena tem lugar na noite que antecede a partida do retratado para a guerra. Sofrendo antecipadamente pela adivinhada saudade, pretendeu ela, com este gesto, fixar a sombra do amado de modo a reter a sua alma, por via do registo da imagem do seu corpo. Para além do evidente propósito de lembrança, esta inscrição funcionaria também enquanto prova da presença daquele que partiu, naquela sala, momentos antes de deixar de se dar a ver.

Ora, se este breve relato invoca o início da pintura, e se uma sua actualização tem lugar nas paredes da galeria, o mesmo (ou algo de muito semelhante) se poderia dizer das restantes obras aqui mostradas, pois todas elas apelam a esse convite de regresso aos arquétipos, sejam eles visuais, literários ou outros. Claro que poderíamos, também, rebuscar a história da pintura ocidental da segunda metade da século passado e aí encontrar, com relativa comodidade, um pólo de referências seguras para a ancoragem das pinturas que aqui se mostram. Mas não é isso que iremos fazer.

À semelhança – guardando as devidas distâncias – do que fez Vítor Pomar para nos trazer as obras que aqui se mostram, também nós trilharemos o caminho mais difícil, mais descentrado e, porventura, menos consensual. Assim, propomos que se leiam estas obras à luz do tal regresso de que atrás falámos, fazendo por escutar os perenes ecos de uma certa ancestralidade.

Identificamo-los nos traços elementares que vibram na superfície destas telas. Aparentemente, elas foram riscadas - quase que rasgadas, pois é de força (s) que aqui se trata - por traços de tal modo singelos, que só um estado anterior (a quê?) e ainda sem baptismo poderia produzir; um estado próximo do começo, do que se diz antes de se ter dito o que quer que seja. A cor, que aqui corre em paralelo com a forma, diz-nos também de uma estreita relação com o essencial, operando de um modo espartano que se revela de eficácia absoluta.

Ouvimo-los nas palavras pintadas que, aqui e ali, nos dão conta de que um traço feito assim, em jeito de letra, diz coisas que os traços que são só traços não dizem.

Escutamo-los, ainda, ao deslocarmo-nos para um inclassificável plano de relação entre espectador e obra, de ordem estritamente pessoal e sujeito a tudo o que de hipoteticamente falível este possa aportar à leitura que aqui se tenta fazer. De entre as várias silhuetas do artista que povoam o espaço da galeria, uma há que contribui para esta nossa tentativa de decifração: no desenho em que o artista surge deitado, por via do reflexo do mesmo no chão do espaço expositivo - que naturalmente se une ao original, enquanto cópia que é -, podemos imaginar uma qualquer espécie desconhecida, um corpo humano apenas pela metade que, placidamente, assume e dá a ver a sua estreita relação com o piso de baixo. Ora, como todos bem sabemos, este andar inferior será, um dia, a morada de todo e cada um de nós. É assim, pois as leis naturais deste modo o ditam. O todo não é apenas o que está à vista, deste lado (ou no piso de cima, se preferirmos), mas sim o que se vê + a sua invisível reverberação.

Vítor Pomar - por se encontrar mais familiarizado com estas questões transcendentais -, ao invés de virar o rosto a fim de contemplar areias menos movediças, trabalha precisamente na direcção oposta à da facilidade, promovendo o contacto com o solo e aproveitando para contemplar o seu reflexo abaixo, precisamente, desse solo.

Diz-nos Vítor Pomar que “Uma exposição é em si mesma equiparável a uma obra cujos elementos são as peças expostas que devem formar um todo rico de interligações de que resulta uma sinergia própria que ultrapassa o somatório das peças escolhidas”.

Nós concordamos e por essa razão por aqui nos quedamos, à escuta das inesperadas ressonâncias que desta exposição resultam.

Carlos Correia, 2017