VERA MOTA WORKSCVExhibitionsArtist Website
         
   
         
   
         
         

Mergulho, Nov 14, 2015 – Jan 9, 2016



Press releaseEnglish


Aquilo que distingue a queda do mergulho é a intenção, a predisposição do corpo – de todo o corpo - ao movimento. A obra de Vera Mota revela sempre um corpo – o seu – em mergulho nas composições plásticas. Neste sentido, a dimensão performativa nunca se afasta das superfícies criadas; o corpo, ainda que submerso em mergulho – invisível - não deixa de estar presente nas imagens que produz. Essas imagens são resultados de uma sucessão de acções, de movimentos que criam, constroem, compõem. Não existe, por isso, qualquer tentativa de reflectir (sobre) o real, mas de o constituir rompendo a estabilidade do mundo.

A performatividade é, antes de qualquer aparato coreográfico, a capacidade de criar matéria. É essa performatividade, destituída de dimensão espectacular, que percorre a obra de Vera Mota. Existe uma relação dinâmica entre o corpo e os materiais, um corpo que em movimento cria outros corpos. Esses corpos – novas entidades que habitam o mundo - não são referências, índices ou substitutos de real, mas concretizações de factos (visuais e plásticos). Por isso os corpos em mergulho nas cinco superfícies que constituem a exposição, que apresenta agora na Galeria Pedro Cera, escapam a qualquer definição categórica e são, em muitos casos, ainda inomináveis.

A artista questiona as condições-conflito que regem a relação entre verticalidade e horizontalidade, a gravidade como condicionante maior da inscrição sensível. Este não é um projecto expositivo, é, pelo contrário, o resultado expositivo de eventos performativos: olhares, acções, movimentos, mergulhos. Se em todas as obras de Vera Mota há uma tentativa de controle dos materiais – impotente, contudo, perante a sua ontologia -, em “Mergulho” propõe-se o controlo do corpo e dos corpos que tentam fender consistências, atravessar espessuras.

Mergulhar é também privar o corpo das suas condições naturais de sobrevivência; o mergulho é a predisposição para colocar o corpo em esforço; acreditar na sua resiliência. Não por acaso os objectos em mergulho sobre as cinco superfícies são incapazes de as atravessar, resistem à passagem, suspendem-se sobre o limite. O mergulho não é, contudo, horizonte utópico desta exposição, pois ecoa em cada objecto o mergulho da artista. 

Ana Cristina Cachola





Numa conversa com a Vera sobre a obra Mergulho falei-lhe de Composition as Explanation (A Composição como Explicação), um texto de Gertrude Stein escrito em 1926. A escritora norte-americana, considerada como uma ‘cubista’ da literatura, leu o texto, pela primeira vez, em duas palestras nas universidades de Cambridge e Oxford, em Inglaterra. No texto, Stein fala de composição como uma espécie de acontecimento que faz parte da experiência do dia-a-dia, usando um termo que associamos directamente à música, à pintura ou ao desenho. A forma como a escritora descreve o que é a composição tem a ver directamente com a criação, a composiçãoque acontece sem que tenhamos consciência, pela repetição de gestos quotidianos, ou a forma como tudo se organiza no nosso espaço privado e público. Stein aplica o termo num campo mais alargado, partindo da análise que mostra um particular interesse nas artes visuais, para falar na ligação que existe entre o acto de fazer ou de reorganizar objectos, imagens e ideias, como reflexo do contexto envolvente. Stein dizia que a composição é a forma como tudo no mundo se organiza, e a única coisa que muda realmente com o passar dos tempos.

O título da obra que Vera Mota apresenta na Galeria Pedro Cera tem a capacidade de nos colocar numa situação bastante específica do ponto de vista da acção. A palavra mergulho sugere essa imersão num estado físico ou psíquico. O título é essencial para a construção de um cenário possível onde o espectador se possa situar. Terá de haver uma disponibilidade física e emocional para que nos consigamos aproximar aos materiais e às formas usadas pela artista como mediadores desta relação. O pano cru numa grade de tela, o vidro, esculturas e objectos encontrados são referências à acção que tem lugar neste espaço.

Neste obra em particular, o espaço que se reconstrói constantemente é o da intimidade, o da relação dos corpos. Aquilo que visualmente parece faltar sempre nas obras de Vera Mora que não são performance, somos nós próprios, espectadores. Como se a artista deixasse esse espaço para ser preenchido por nós. Essa relação de intimidade de que falo é, no primeiro momento de confronto com a obra, como se estivéssemos a caminhar sozinhos e de repente nos deparássemos com alguém desconhecido ou com objectos absolutamente incompreensíveis, mas que aos poucos se revelam como parte de nós mesmos.
Aquilo que o espectador produz ao olhar para a obra de Vera Mota está muito próximo do exercício que a própria artista faz quando compõe as suas peças. É um teste e uma prova de resistência do corpo em relação aos materiais e aos objectos. Uma intimidade absoluta por um lado, e por outro um afastamento necessário para uma observação que permita deixar apenas o essencial. Os objectos e as esculturas que ficam pousadas em cima do tecido são aqueles que resistiram ao embate, como vestígios de um campo de batalha.

Nesta obra em particular a artista constrói esse espaço, que é muitas vezes tomado como uma arena, para dar lugar a um confronto de dimensões íntimas. A arena, que no seu trabalho nos habituámos a olhar como um combate de boxe, é o lugar onde conseguimos observar a superfície dos corpos em acelerada deterioração. Como se envelhecem em poucos segundos, ou como se pudéssemos assistir em poucos minutos à vida de alguém que nasce e morre ali à nossa frente. E o título desta obra remete para um espaço onde o corpo se encontra no momento que antecede ao estado de vulnerabilidade, e o espectador tem de se confrontar com o sua própria imagem. E é isso que é inquietante ao observarmos a obra de Vera Mota, é esse confronto com a nossa incapacidade de encontrar um motivo, uma razão, encontrar algo que nos segure. Porque a artista coloca-nos no meio do oceano, numa jangada que pode quebrar a qualquer momento.

No texto The Aesthetics of Silence (A Estética do Silêncio) de 1968, Susan Sontag escreve sobre o silêncio como uma forma do artista manifestar, através da obra, a questão do olhar como primeira armadilha. Num determinado momento Sontag escreve: “O silêncio é uma metáfora para uma visão limpa e sem interferências, na qual se consegue ver a produção de obras de arte que não existam antes de serem vistas, invioláveis no seu essencial ao escrutínio humano. O espectador aproxima-se da obra como se fosse paisagem. A paisagem (natureza) não pede ao espectador que este a entenda, que lhe encontre significado, que reflicta as suas ansiedades e simpatias; pede aliás a sua ausência, que não lhe acrescente nada.  Contemplação, no seu sentido mais lato, gera uma espécie de auto-esquecimento por parte do espectador: um objecto que valha a pena contemplar é um que de alguma forma aniquila o sujeito que o percepciona”.

A decisão de escrever sobre a obra de Vera Mota foi pessoal. A Vera não me pediu que escrevesse sobre a sua obra, e isso é muito importante. Acontece que eu sempre tive vontade de pensar e escrever sobre o seu trabalho. Porque me interessa pensar o espectador e a sua relação com a arte, no sentido em que é muito complexo tentar explicar o próprio papel da arte na vida das pessoas. Porque na realidade não há explicação possível. A arte tem precisamente a ver com a necessidade que temos de, por um lado, usar as manifestações artísticas para compreender o mundo e, por outro, pensar a nossa relação com as coisas que não compreendemos. Temos de aprender que não há problema nenhum em não saber explicar tudo. Estas são as minhas perguntas e o espectador não deverá confundir com as suas. Cada um de nós faz a sua pergunta. E é assim que deve ser. Há poucas certezas que tenho comigo, mas esta é uma delas: cada um faz as suas perguntas, cada um faz as suas imagens, por mais comuns ou complexas que sejam, por menos eloquentes ou intelectuais que possam parecer. Mas o importante é que as faça. E que use essas ferramentas para olhar de  forma crítica tudo à sua volta.

Pedro Barateiro, Novembro 2015





Ferir o plano horizontal, querer romper e ir para alem da superfície, atravessar a massa e afectar a sua constituição a sua densidade,  submergir.

Neste trabalho vários objectos interferem com a superfície de planos sensíveis ainda que resistentes.  Esses objectos indiciam um gesto de depositar de entregar o objecto ao seu peso sobre a superfície. Esta superfície não é atravessada e constitui sempre limite. A imersão acontece na acção, quando o corpo se precipita sobre o plano largo e entrega uma forma à sua força.

É o corpo que mergulha e se entrega a movimentos que percorrem o espaço em direcção ao chão. Quedas que descrevem linhas. Suspensões, tempo e resistência,  inscritos em objectos inertes,  que interferem mais ou menos com esta massa elástica. Há uma afecção contida dos materiais, num recipiente pouco fundo onde rapidamente se acede ao chão. De forma violenta ou pairando à superfície, cada substancia materializa a força e amplitude do movimento que exigiu para ser implantado, depositado.

Na sua evidência física, não são mergulhos exploratórios, são mergulhos de desaparecimento frustrado, são mergulhos que não perfuram a superfície, são mergulhos em intenção.
Indicia-se ainda assim uma presença, revela-se o agente que percorreu o tanque de ar que sobrevoa estes rectângulos em linhas ora rápidas e secas, ora dolorosas e lentas, o corpo que oscila da vertical à horizontal para servir melhor o que acontece.
O espaço negativo do trabalho é espaço de ensaio, de preparação, para respirar uma última vez. Precisão, suspensão e salto. A queda é desdobrada e parece estender o tempo, a finalização confirma a validade do trajecto, turvo ou límpido.

Entre o mergulho livre e mergulho em apneia, músculos e resistência estão ao serviço de operações exigidas pelo trabalho, mais do que pela vontade. Mergulhar descrevendo uma linha como quem arrasta o lápis sobre o papel. Mergulhar e medir o tempo que o corpo resiste submerso. Mergulhar e poder não emergir.

Vera Mota